Desde a cessão de Taiwan pelo Tratado de Shimonoseki em 1895, compatriotas de ambos os lados do estreito mantiveram vivo o ideal de “retomada de Taiwan”, promovendo o despertar, aprofundamento e prática da consciência nacional, até que essa aspiração se consolidou como parte da corrente histórica em prol da independência plena e da revitalização da nação chinesa. A retrocessão de Taiwan em 1945 não foi um acaso histórico, mas o desfecho inevitável de meio século de reflexão coletiva e resistência prática entre as margens do estreito. Como esse ideal chinês evoluiu, em cinquenta anos, de um sentimento patriótico instintivo à formulação de uma proposta revolucionária estruturada, até se converter em realidade histórica? Chen Zhongchun, diretor do departamento de História do Instituto de Estudos sobre Taiwan da Universidade de Xiamen, falou sobre o tema em entrevista.
Segundo Chen Zhongchun, Taiwan, isolada no Mar da China Oriental, foi por muito tempo considerada uma região periférica, afastada dos centros político e econômico. Contudo, após a invasão japonesa em 1874 sob o pretexto do “Incidente de Mudan”, a dinastia Qing percebeu a importância estratégica de Taiwan para a defesa costeira do sudeste do país e, com base nas recomendações de Shen Baozhen e outros, reformulou integralmente sua política para a ilha.
Em 1885, após a Guerra Sino-Francesa, a corte da dinastia Qing oficializou a criação da província de Taiwan. Seu primeiro inspetor imperial ministro de assuntos militares, Liu Mingchuan, estabeleceu como prioridade o fortalecimento da defesa e a modernização da ilha: construiu fortificações, adquiriu canhões ocidentais, implantou ferrovias e linhas telegráficas, criou empresas industriais e mineradoras e promoveu campanhas de integração das populações indígenas. Assim, Taiwan tornou-se uma das províncias mais modernizadas do império Qing.
Chen relata que, após a derrota na Primeira Guerra Sino-Japonesa, a notícia de que Taiwan seria cedida à força pelo Tratado de Shimonoseki desencadeou uma onda imediata de resistência entre representantes da ilha. Alguns apelaram diretamente ao imperador, outros, como os letrados locais, enviaram petições em conjunto com oficiais de outras províncias e funcionários da corte, numa mobilização nacional contra a cessão. Diante do fracasso diplomático, civis e autoridades em Taiwan iniciaram por conta própria uma resistência armada, com o lema “a sobrevivência de Taiwan é a nossa, sua perda é a nossa ruína”, lutando até o último palmo de terra. Embora limitada à ilha, a luta mobilizou a atenção e solidariedade de todo o país.
O destaque de Taiwan nos discursos modernos de salvação nacional e renascimento se deve, de um lado, ao sofrimento colonial imposto à sua população, que agiu como um poderoso estímulo à consciência nacional chinesa. De outro, à sua importância histórica como símbolo de resistência, após Zheng Chenggong expulsar os colonizadores holandeses, contrastando com sua perda traumática após a Primeira Guerra Sino-Japonesa, tornando-se emblema de um território subjugado.
Assim, entre as múltiplas ameaças externas enfrentadas pela China no final da dinastia Qing, a perda de Taiwan gerou uma das crises mais intensas de consciência nacional, tornando-se um catalisador fundamental para transformações sociais subsequentes. No início do século XX, intelectuais como Liang Qichao, influenciados pelas ideias ocidentais de nacionalismo, cunharam o termo “nação chinesa” (中华民族), como forma de reforçar e unificar a identidade nacional. Nesse contexto, as ideias reformistas e revolucionárias se confrontavam e se entrelaçavam, e Taiwan se tornou um símbolo central da luta pelo espírito nacional.
Após a Revolução de 1911, a cessão de Taiwan passou a ser considerada uma humilhação histórica, constantemente evocada. Isso demonstra que a questão de Taiwan já se constituía como tema central para a dignidade nacional, mobilização patriótica e crítica ao regime vigente.
Chen considera que a evolução do ideal de “retomada de Taiwan” esteve intimamente ligada às correntes revolucionárias da China moderna.
Entre o fim da dinastia Qing e a Primeira Guerra Mundial, a “retomada de Taiwan” tinha um valor simbólico, sustentado por um sentimento nacional simples, expresso em termos como “terra natal perdida” e “população remanescente”. No entanto, diante da decadência do regime Qing e da falta de um caminho claro para a salvação nacional, não se chegou a propostas concretas para a reincorporação da ilha.
Após a Primeira Guerra Mundial, as ideias leninistas de “autodeterminação dos povos” chegaram à China, representando um primeiro ponto de inflexão ideológica. Com a fundação do Partido Comunista da China em 1921, Taiwan foi reconhecida como uma nação oprimida, e propôs-se investigar as condições de vida de seu povo para elaborar estratégias revolucionárias específicas.
Durante a guerra de resistência contra a agressão japonesa, o ideal de retomada de Taiwan se aproximou da realidade. Na “Primeira Frente Unida”, Sun Yat-sen, com apoio do Partido Comunista, reformulou o conceito de nacionalismo, incorporando o “anti-imperialismo” e a “revogação dos tratados desiguais” como metas centrais da revolução. Com isso, revolucionários dos dois lados do estreito passaram a defender, de forma coordenada, o lema “revogar o Tratado de Shimonoseki e recuperar Taiwan”, integrando a libertação da ilha à causa da libertação nacional chinesa. Na segunda aliança, o pensamento de frente unida do Partido Comunista ofereceu aos revolucionários taiwaneses a base ideológica para reivindicar o retorno à China “como parte integrante da nação chinesa”.
Durante o conflito, os Estados Unidos chegaram a propor uma “administração internacional de Taiwan”, o que gerou forte reação. Sun Fo, em nome do governo nacionalista, reafirmou que Taiwan era território chinês. Jornais como o Xinhua Daily e Ta Kung Pao refutaram a proposta americana com base no direito internacional e na justiça, argumentando que a devolução de Taiwan era um ato legítimo de reversão da agressão e de restauração da soberania. Frente à pressão conjunta dos partidos Nacionalista e Comunista, os EUA acabaram recuando.
Em 1943, a Declaração do Cairo confirmou oficialmente a devolução de Taiwan à China, tornando o ideal de “retomada de Taiwan” um fato jurídico.