A Segunda Conferência Mundial de Estudos sobre a China foi realizada recentemente em Xangai, reunindo estudiosos de diversos países para discutir o tema “China Histórica e Contemporânea: Uma Perspectiva Global”. Às vésperas do evento, o coordenador do Conselho de Sinologia da Argentina, Gustavo Alejandro Girado, concedeu entrevista exclusiva à WE-TALK, na qual analisou o impacto do processo de modernização da China sobre os países da América Latina e compartilhou sua visão, enquanto acadêmico latino-americano, sobre como entender melhor a modernização ao estilo chinês.
Segundo Girado, certos desafios considerados parte do processo de modernização na China não são necessariamente vistos da mesma forma no Ocidente. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que, após o fim da Segunda Guerra Mundial, a estrutura institucional que passou a reger a ordem internacional foi criada pelas potências vencedoras. Apesar de a China estar entre elas, seus interesses e valores não foram devidamente levados em conta na concepção da nova ordem global.
Girado aponta que essa ordem global, que perdura há mais de 80 anos, está hoje em transformação. Impulsionadas por diferentes forças, instituições que não refletem mais os interesses da maioria dos países ou que se mostram inadequadas aos tempos atuais estão sendo reformadas. Nesse processo, alguns países ocidentais resistem às mudanças para preservar seus privilégios, enquanto, em contrapartida, nações emergentes e em desenvolvimento, com a China à frente, promovem um novo modelo de cooperação centrado na igualdade e no multilateralismo. O embate entre essas duas posturas deve remodelar a ordem internacional, embora os resultados ainda sejam incertos.
Na visão de Girado, sob a ótica latino-americana, o desenvolvimento da China é extraordinário e digno de admiração, sendo sua experiência algo que merece ser estudado. No entanto, ele adverte que o percurso chinês de modernização não pode ser simplesmente replicado na América Latina, em razão das diferenças de sistemas políticos e fundamentos civilizacionais entre as duas regiões.
Girado ressalta que a civilização chinesa possui uma história de milênios. Em contraste, na América Latina, as civilizações indígenas foram destruídas durante o período colonial, e as populações locais passaram a assimilar culturas externas. Tal processo gerou um debate ainda inconcluso na região: que identidade devemos assumir? Como devemos governar nossos países? E que tipo de relações devemos estabelecer com nações cujos interesses estejam alinhados aos nossos?
Para o estudioso, compreender a modernização ao estilo chinês exige captar a lógica interna que sustenta a ordem social chinesa, uma lógica que difere substancialmente dos fundamentos tradicionais ocidentais. Por exemplo, a atual teoria chinesa das relações internacionais conhecida como “visão do mundo sob o céu” (Tianxia), incorpora uma concepção de ordem social que não encontra paralelo na filosofia greco-romana, base do pensamento político ocidental.
Girado manifesta grande expectativa em participar do evento e dialogar com especialistas de diversas partes do mundo sobre o desenvolvimento da China, as relações internacionais com o país e o estado atual dos estudos sinológicos no mundo. Como coordenador do Conselho de Sinologia da Argentina, ele acredita que essa troca presencial trará contribuições valiosas para suas pesquisas acadêmicas.