Em 2005, um jovem brasileiro apaixonado pela cultura tradicional chinesa atravessou o oceano rumo à China. Ao longo das últimas duas décadas, ele percorreu uma trajetória que o levou de estudante de mandarim a pesquisador da cultura chinesa e tradutor de clássicos, consolidando-se como um dos principais divulgadores do pensamento filosófico e político chinês no mundo lusófono. Este estudioso é Giorgio Sinedino, conhecido pelo nome chinês “沈友友” (Shen Youyou), um renomado sinólogo brasileiro. Recentemente, em entrevista ao WE-TALK, Giorgio Sinedino analisou a disseminação e o desenvolvimento do confucionismo no Brasil, destacando seu impacto e relevância no cenário atual e aprofundando a discussão sobre o assunto.
“Se tivermos que escolher um clássico chinês para traduzir e interpretar, acredito que a maioria das pessoas optaria pelo ‘Analectos de Confúcio’”, afirmou Giorgio, destacando a importância dessa obra. Ele explicou que, antes da era moderna, Os Analectos eram um livro de iniciação e uma das bases do pensamento e da filosofia da tradição confucionista na China. Para ele, o desenvolvimento da sinologia no Ocidente também comprova que essa obra representa, em grande medida, o pensamento chinês.
A tradução dos Analectos para o português no Brasil apresenta, no entanto, particularidades únicas. Giorgio Sinedino destacou que, no início do século XX, Confúcio já era uma figura pública no Brasil. Diante do cenário político da época, os brasileiros, insatisfeitos com a vida política, procuravam soluções externas e se depararam com os ideais confucianos de “integridade e honestidade” no governo. Assim, Confúcio foi visto como um símbolo da sabedoria oriental.
Sinedino destacou que, seu trabalho não se resume à tradução literal do “Analectos de Confúcio”, mas sim à explicação do valor filosófico contido na obra para o público lusófono.
Contudo, essa tarefa não é simples. O primeiro desafio está na linguagem: Os Analectos são escritos em chinês clássico, um sistema linguístico muito diferente do português, sem correspondência direta em muitas estruturas e vocábulos básicos. O segundo desafio é o contexto cultural. Os Analectos tiveram papel crucial na construção institucional da China, na cultura ritual e musical, bem como na formação das concepções morais do país. No entanto, durante a tradução, muitas dessas noções não possuem equivalentes diretos no Ocidente e, quando existem, frequentemente são interpretadas sob a ótica da tradição cultural ocidental.
Apesar dos desafios, o crescimento e o progresso do confucionismo no Brasil são evidentes. Sinedino apontou que a demanda por livros relacionados à cultura chinesa tem aumentado constantemente no país, refletindo um interesse crescente dos jovens brasileiros pela cultura asiática, incluindo o pensamento confuciano.
Ele expressou a esperança de que mais brasileiros possam viver na China por um período, aprender diretamente com mestres chineses e como os próprios chineses interpretam seus clássicos, além do impacto dessas obras na sociedade.
Sobre a disseminação do confucionismo no mundo, Giorgio Sinedino acredita que o desenvolvimento do pensamento confuciano é um processo dinâmico e em constante evolução. Para que a comunidade internacional compreenda melhor o confucionismo e a China, é essencial reconhecer a complexa relação entre o confucionismo e o mundo moderno.
Ele propôs dois ângulos de estudo para essa questão. O primeiro é a necessidade de uma pesquisa objetiva, abrangente e profissional sobre o confucionismo, analisando sua evolução desde a era pré-Qin até a dinastia Han e os tempos contemporâneos. Isso contribuirá para o avanço contínuo da sinologia e dos estudos confucionistas internacionais. O segundo ponto é adaptar a disseminação do confucionismo às particularidades culturais de cada país, tratando-o como parte de um intercâmbio cultural.
“Por que, após 2.500 anos, Confúcio ainda é lembrado e se tornou uma figura global? Porque ele e o confucionismo possuem um significado universal indispensável”, afirmou Giorgio. Considerando as particularidades de cada país, ele sugeriu a criação de equipes especializadas para promover a troca cultural, estabelecendo um intercâmbio positivo. No Brasil, por exemplo, a tradução de textos clássicos chineses para o português desempenha um papel essencial na intensificação dos laços culturais sino-brasileiros. Segundo ele, a academia brasileira já reconhece profundamente a importância de apresentar a sabedoria oriental ao Ocidente.