Das tábuas cuneiformes da Babilônia às inscrições oraculares em ossos de Yin Xu, do “calendário de contagem longa” maia ao calendário Chongzhen, que mescla tradições ocidentais e chinesas, os calendários não são apenas ferramentas técnicas, mas também símbolos da percepção humana sobre o espaço-tempo. Como os antigos chineses desenvolveram um sistema preciso de calendário lunissolar? Qual a sabedoria agrícola oculta por trás do conceito de “ano de dupla primavera”? E como as diferenças entre calendários orientais e ocidentais refletem distintos fundamentos civilizacionais? Em uma entrevista exclusiva, o professor Zhou Liyong, da Faculdade de Astronomia e Ciências Espaciais da Universidade de Nanquim, discute sobre o tema.
Zhou explicou que o fenômeno do “ano de dupla primavera e mês bissexto” é uma expressão da sabedoria chinesa na harmonização dos ritmos celestes e terrestres. O calendário lunissolar tradicional precisa acompanhar as fases da Lua, garantindo que o primeiro dia de cada mês coincida com a Lua nova e que o 15º dia corresponda à Lua cheia. No entanto, também deve ser ajustado para sincronizar com o ano solar. Os antigos chineses perceberam que 12 meses sinódicos (cerca de 354 dias) são 11 dias mais curtos que um ano solar (365,24 dias), levando ao desenvolvimento da regra “sete anos bissextos a cada 19 anos”. Quando um ano lunissolar contém 13 meses, pode ocorrer o fenômeno do “ano de dupla primavera”, em que o ano começa e termina com o período do Lichun (início da primavera).
Esse ajuste não existe nos calendários puramente solares (como o calendário gregoriano) nem nos puramente lunares (como o calendário islâmico), sendo uma característica única da civilização agrícola chinesa, onde o comportamento da humanidade corresponde ao comportamento da natureza.
Os diferentes sistemas de medição do tempo refletem as necessidades e lógicas produtivas de suas respectivas culturas. O Egito Antigo, por exemplo, adotou um calendário solar para prever as cheias do Nilo. Os maias, por sua vez, utilizaram um calendário sagrado de 260 dias para organizar rituais e cerimônias. Algumas tribos indígenas da América do Norte estruturaram seus calendários em 18 meses de 20 dias, adaptados às atividades de caça e pesca. Assim, cada sistema é uma resposta adaptativa ao ambiente e às necessidades de sua civilização.
Para Zhou Liyong, o estudo e a imaginação sobre o cosmos sempre foram pontes de intercâmbio entre civilizações. Desde a antiguidade, a observação e interpretação do céu não apenas moldaram culturas distintas, mas também forneceram uma linguagem comum para o diálogo intercultural.
A fusão entre diferentes sistemas astronômicos de calendário muitas vezes se assemelha ao “sal na comida” – sutil, porém profundamente impactante. Durante as dinastias Sui e Tang, conceitos astronômicos indianos foram incorporados à China por meio das escrituras budistas que chegavam pela Rota da Seda. No final da dinastia Ming e início da Qing, missionários ocidentais introduziram a teoria heliocêntrica de Copérnico, que entrou em confronto e se integrou ao tradicional modelo chinês de universo, o “Huntianshuo” (modelo da esfera celeste). Um exemplo desse intercâmbio foi o calendário Chongzhe, revisado sob a supervisão de Xu Guangqi, que manteve o sistema das 28 mansões do calendário lunissolar enquanto incorporava métodos europeus de medição astronômica, tornando-se um exemplo clássico da fusão entre conhecimento chinês e ocidental.
As diferenças entre os calendários também criaram oportunidades de complementaridade. Durante a Era das Grandes Navegações, os europeus utilizaram mapas celestes para navegar e explorar novas rotas comerciais, enquanto a China aplicava um método de navegação guiado pelas estrelas durante as Viagens do Tesouro Ming. Atualmente, essa complementaridade persiste: os sistemas de navegação por satélite Beidou (China) e Galileo (Europa) possuem frequências compatíveis, ilustrando a continuidade desse intercâmbio tecnológico.
Zhou Liyong afirmou que, como parte essencial da civilização chinesa, o calendário tradicional chinês tem influenciado continuamente os modos de vida e produção ao longo da história, por meio de festividades, costumes e práticas agrícolas, moldando também a memória coletiva.
O calendário tradicional chinês está enraizado na sociedade agrícola, tendo como função central a orientação das atividades sazonais. Os 24 termos solares, como Lichun (Início da Primavera) e Dongzhi (Solstício de Inverno), tornaram-se símbolos da fusão entre natureza e cultura, refletindo a visão cósmica de harmonia entre humanidade e natureza. O calendário tradicional valoriza o equilíbrio entre yin e yang: as migrações do início da primavera seguem o calendário lunissolar, enquanto lançamentos espaciais utilizam a contagem regressiva do calendário gregoriano. A coexistência desses dois sistemas é uma expressão moderna da natureza inclusiva da civilização chinesa.
Em uma perspectiva global, o Tết (ano novo vietnamita) preserva costumes como colar pares de versos auspiciosos nas portas (chunlian) e comprar galhos de pêssego; o Chuseok (festival coreano da “noite de outono”) mantém as cerimônias de adoração aos ancestrais; e a comunidade chinesa na Malásia desenvolveu um sistema festivo que combina o calendário lunissolar com o islâmico. Essa capacidade de adaptação intercultural comprova que os calendários tradicionais possuem uma natureza de “cultura transregional”.